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Crónica Mensal »»»                                                                                 PURA DISCRIMINAÇÃO

Leia excertos do livro "Um Poema, Uma Flor" de João Luís Dias em:

http://www.youtube.com/user/jotaldias

 

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Um poema enorme


 Queria escrever um poema enorme
nem que fosse o poema enorme
mais pequenino do mundo
Queria escrever um poema enorme
nem que fosse o poema enorme
mais simples do mundo
Queria escrever um poema enorme
nem que fosse dos poemas enormes
o menos enorme de todos
mas que fosse enorme para ti
porque para ti

enorme…
só um poema maior!
 

João Luís Dias

 

 

AO POETA DA MONTANHA

O poeta estava só. Era o último homem do sentir e do saber, porque os cinzentos tinham invadido a cripta do conhecimento e haviam selado a porta.

O poeta fugira e habitava então os montes mais altos que havia no lugar.

E ficava cogitando, lá, no sítio onde, a génio, dormia em camas de morrinha e pasto tenro.

Lavava-se com orvalho gotejado das manhãs, enquanto, obrigado pela vida, trabalhava num espaço fechado, onde se vingava sonhando o Céu e a Lua o dia inteiro.

Era difícil ser poeta por ali, na pátria velha onde os outros todos já tinham perdido a alma.

Mas ele vivia o lado de dentro do arco-íris. Vivia para o sonho e a paz.

Vivia para criar beleza nas palavras e nos sons, musicar a fala. Amar o amor. Saber.

Vivia por dentro do acto difícil do sentir. E sobrevoava o teatro imenso da Natureza toda, fascinado. Coisas da solidão, difíceis de explicar.

Insistir no discurso era árduo. Era como uma enxada cavando em granito, fealdade e frieza. Isolado nos montes…todos os dias, era difícil.

Então foi buscar poetas aos montes e prados vizinhos. Juntaram-se e beberam o hidromel das vestais e dos deuses. Juntos, tornaram-se revolta.

E do cinzento nasceu a paixão do impossível. Descobriram a cor. Tornaram-se lenda e imagem. Mais fortes os laços, mais montanha nos dedos, mais amizade nas veias.

E assim aprenderam a dar as mãos e a sentir mais, nas águas cálidas e límpidas da fonte da inteligência.

E prometeram para sempre, por cada poema, uma flor.

Aos olhos de uma mulher absoluta, nascida da bruma e do arrepio.

Juraram pela mulher ideal. A que vive em cada sonho de poeta, em cada amor amargo e doce como a vida.

E assim nasceram para um amor florido e puro. Como o cristal imenso de um olhar meigo quando nos diz: quero-te.

E a montanha fez-se de todas as cores, em flores e fantasia. E a comida do sonho tornou-se o néctar da eternidade.

E só viver esse sonho de palavras e beleza vale a pena. Dizem os eternos sonhadores.

Os tais que afinal, são eles, e apenas eles, os construtores do futuro.

E pagam cada poema com uma flor. E vivem na cripta solene da eternidade e do sentir. 

                                       

Pedro Barroso (autor, cantor, compositor)                                                                                            

 

 

CALIDUM - Clube de Autores Minhoto/Galaicos - 2008